terça-feira, 1 de agosto de 2017

Vegetação nativa bem protegida por produtores brasileiros

Um dos principais produtores de alimentos, energia e fibras, o Brasil também se destaca na preservação ambiental, com mais de 66% de seu território coberto por vegetação nativa. Esse número sobe para quase 75% se as áreas de pasto nativo do Pantanal, Pampa, Caatinga e Savana estiverem incluídas.
Toda a produção de grãos (milho, arroz, soja, feijão), fibra (algodão, celulose) e agroenergia (cana-de-açúcar, florestas de energia) ocupa apenas 9% do território brasileiro. Os produtores rurais destinam mais áreas à preservação da vegetação nativa em suas propriedades (20,5% do território brasileiro) do que todas as unidades de conservação juntas (13%).
Esses dados da Embrapa resultam, principalmente, de informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR), criado pelo Código Florestal, que acaba de completar cinco anos. Mais de 4,1 milhões de propriedades rurais, totalizando mais de 410 milhões de hectares, foram registradas no Serviço Florestal Brasileiro até maio de 2017.
Os agricultores detalharam em mapas, com base em imagens de satélite, o uso de ocupação da terra, conforme previsto pelo Código Florestal. Em uma comparação com a Declaração de Imposto de Renda, é como se o contribuinte precisasse descrever, na planta de sua casa, como cada peça do mobiliário está disposta e qual o uso de cada cômodo. Na Amazônia, por exemplo, o contribuinte terá que mostrar que 80% da propriedade não está em uso, e foi separada como reserva legal. E também que conserva e paga impostos por todas as áreas, inclusive a porção de 80% cujo uso está proibido.
Considerando a área agrícola registrada no CAR, é possível diagnosticar que os produtores brasileiros destinam à preservação muito mais áreas do que todas as unidades de conservação. Na região Sul do Brasil, os agricultores preservam 26% de suas terras, um número bem acima do que requer o Código Florestal (20% nessa região).
Na região Sudeste – com exceção do Espírito Santo, onde os dados ainda não estão disponíveis – os agricultores preservam 29% de sus terras, acima do que determina o Código Florestal (20% na região). No Centro-Oeste – com exceção do Mato Grosso do Sul, cujos dados também não estão disponíveis – percentagem maior do que a que o Código Florestal determina está preservada: 49% das terras (20% é o exigido pelo Código).
No Norte, apenas a agricultura do Tocantins preserva mais do que as unidades de conservação. Dentro de suas propriedades, os agricultores apresentam uma taxa de preservação da vegetação nativa de 56%. Nos outros estados amazônicos, a preservação ambiental é ampla: 71% do Amapá, 53% do Amazonas, 47% do Acre, 66% de Roraima e 50% do território do Pará – e há extensas áreas cobertas por floresta tropical em terrenos baldios.
No Nordeste brasileiro, estima-se que 36% das propriedades rurais se registraram no CAR, o suficiente para indicar o papel dos agricultores na preservação da vegetação. Na maioria dos estados do Nordeste, os produtores destinam à preservação da vegetação nativa mais de 50% das propriedades, quando apenas 20% é o requisitado (exceto em parte do Maranhão).
É importante destacar que se a vegetação nativa do Pantanal, Caatinga e Cerrados for adicionada às áreas de vegetação nativa preservadas e protegidas, o total alcançaria quase 75% do território nacional. E essa percentagem tende a aumentar quando os dados do Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e do Nordeste estiverem disponíveis.
Este enorme esforço de preservação ambiental em propriedades rurais beneficia toda a nação. Desde 1990, há discussão sobre o pagamento por serviços do ecossistema. Os brasileiros defendem a proteção do meio ambiente em áreas rurais, o que é justo, mas a responsabilidade e os custos relativos a imobilizações e manutenção dependem inteiramente dos produtores. O conjunto de produtores rurais merece, pelo menos, maior conhecimento sobre sua realidade e reconhecimento pelo papel desempenhado na produção de alimentos e na proteção do ambiente.

Evaristo de Miranda
Chefe da Embrapa Gestão Territorial


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Declaração e Compromisso Fé no Clima


Lideranças religiosas do Brasil e do exterior acabam de lançaram em 2015 a Declaração e Compromisso Fé no Clima. O documento, assinado por representantes de 12 religiões, sintetiza as percepções e aspirações comuns a todos, as quais incluem o chamado para que a sociedade, por intermédio também das suas comunidades religiosas, envolva-se assertivamente na discussão sobre as mudanças climáticas, e uma agenda básica para que o governo assuma metas ambiciosas na Conferência do Clima (COP 21), que ocorrerá em Paris em dezembro de 2015.


 
Comunidades Religiosas e Mudanças Climáticas
 Introdução
·               Reunidos a convite do Instituto de Estudos da Religião (ISER), em parceria com Gestão de Interesse Público (GIP), no Encontro Internacional Fé no Clima, ocorrido em 25 de agosto de 2015 no Rio de Janeiro, enquanto representantes de diversas comunidades religiosas regionais, nacionais, internacionais e transnacionais, vimos compartilhar nossas convergências de percepções e aspirações em torno do tema das mudanças climáticas.
·               Consideramos que essas percepções e aspirações, na medida em que sejam conhecidas e disseminadas no interior das nossas comunidades religiosas, contribuirão de maneira substantiva para promover na esfera local mudanças comportamentais e éticas — individuais e coletivas —, que se somarão aos compromissos sociais, econômicos e políticos a serem assumidos pelos governos em suas esferas regionais, nacionais e nos fóruns internacionais
·               O debate sobre as mudanças climáticas não pode se dar descontextualizado das questões sociais, econômicas e ambientais. O risco que se corre com isso é o de que este importante desafio de lidar com a mudança do clima se torne apenas mais uma “bandeira”, sem uma reflexão mais profunda sobre seus impactos no aprofundamento das desigualdades e na geração de disputas de política econômica global. Esse debate deve ser apreciado à luz da justiça social, das questões ambientais mais amplas e da busca de equidade econômica.
·               O grupo de lideranças comunitárias e religiosas, comprometido com a agenda ambiental, reunido na iniciativa Fé no Clima espera dar um testemunho vivo da possibilidade de comunhão de percepções, aspirações e ações concretas para a construção de um mundo mais saudável e respeitoso, mesmo em face da mais ampla diversidade de crenças e pertenças e inclusive de não crenças.
Percepções comungadas
·               A Ciência vem demonstrando que o estado de dilapidação do planeta Terra e o agravamento das mudanças climáticas foram provocados pela ação humana recente (Antropoceno). O conjunto de ações que conduziram o planeta à situação presente foi baseado em uma mentalidade dominante que acreditava e agia como se o ser humano fosse algo isolado das complexas relações que possibilitam a vida. Nossos fundamentos sagrados, no entanto, encontram uma forte convergência na percepção de que o ser humano é tão importante no planeta Terra (Mamapacha, Irê, Casa Comum) quanto os outros entes animados e não animados que aqui vivem. A interdependência entre todos os seres é a consciência que devemos promover em nossas comunidades, se quisermos propiciar uma transformação ética e comportamental sistemática e planetária.
·               Consideramos que enquanto a lógica da competição dominar a vida humana em sociedade e prevalecer na base das razões dos Estados e nos campos de negociação da diplomacia global, pouco ou nenhum avanço conseguiremos no sentido de tornar a vida planetária mais justa e segura. Baseados em nossos fundamentos sagrados comungamos a ideia de que o espírito de colaboração e cooperação pavimentam o caminho de uma vida em sociedade mais saudável e digna para todos e cada um dos nós, em harmonia com o ambiente e nossas diferenças intrínsecas. O espírito de colaboração e responsabilidade compartilhada é o que devemos promover em nossas comunidades, se quisermos propiciar a sustentabilidade da comunidade e do planeta, onde cada pessoa conhece e defende os seus direitos, aceita e se compromete com as suas responsabilidades.
·               Entendemos que para a mobilização das nossas comunidades em torno do tema das mudanças climáticas devamos nos aproximar da Ciência e dos Saberes Tradicionais com igualdade de respeito e valoração. Cada uma destas formas de produção de conhecimento, à sua maneira, nos oferece evidências do estado atual do planeta e os horizontes possíveis para ações transformadoras. Nossas experiências com ações sociais e educativas desenvolvidas em nossas comunidades demonstram que percepções e conceitos são melhor compreendidos e assimilados quando apresentados a partir de experiências vividas. Assumimos o compromisso de  expressar as discussões sobre mudanças climáticas em uma linguagem que faça sentido para nossas comunidades e que nos permita refletir sobre como podemos transformar nossos modos de vida, promovendo sensibilização e mobilização efetiva sobre o tema.
·               Consideramos a juventude o grande ator potencial da transformação de que necessitamos. As gerações passadas, incluindo-se a nossa, agiram equivocada e inconsequentemente, e disto estamos conscientes. Os jovens das nossas comunidades são os principais agentes da transformação desejada e aqueles que construirão — assim o esperamos — um planeta mais saudável para acolher os sonhos e as aspirações humanas. Devemos agir imediatamente, veiculando esta mensagem de confiança na juventude e em sua capacidade de transformação de uma forma abrangente e eficaz, utilizando todos os meios de comunicação ao nosso alcance e uma linguagem positiva, se desejarmos que as chances de um futuro saudável e seguro estejam garantidas para as gerações atuais e futuras.
Aspirações compartilhadas
·               Sem negar nossa preocupação com as tristes perspectivas que se apresentam sobre o futuro da vida humana no planeta Terra, acreditamos na potência transformadora que reside na comunhão de aspirações das diversas comunidades religiosas do mundo. Congregados na intenção de transformar o paradigma de desenvolvimento vigente, pautado equivocadamente na visão de que a proteção ao meio ambiente é um obstáculo ao crescimento econômico e à promoção do bem-estar de nossas sociedades — e sua correlata mentalidade predadora — desejamos contribuir com a promoção de importantes transformações éticas e comportamentais — individuais e coletivas — na direção de uma Criação que reflita esforços de cuidado, conexão espiritual e justiça social, econômica e ambiental.
·               Entendemos como fundamental que a sociedade, por intermédio também das suas comunidades religiosas, envolva-se assertivamente na discussão sobre as mudanças climáticas, a responsabilidade que temos sobre elas e o que podemos fazer, individual e coletivamente, para mudar nosso estilo de vida,  interagindo com seus governos e instituições especializadas no processo de construção de uma agenda global de enfrentamento da crise climática, anunciadas pela Ciência e que só vem agravando, decorrentes das ações humanas predatórias.
·               Convocamos as comunidades religiosas a demandarem que seus governos nacionais assumam metas ambiciosas na Conferência do Clima (COP 21), que ocorrerá em Paris em dezembro de 2015, para promover: 1) a redução substancial das emissões de gases com efeito de estufa compatível com a necessidade de limitar o aumento da temperatura global a 2 graus Celsius até 2100; 2) a preservação da biodiversidade em todos os biomas; 3) o controle do desmatamento; 4) ações de adaptação em benefício das populações mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas; 5) a garantia de preservação de tradições culturais e modos de vida; 6) o combate à fome e à indignidade, e 7) a adoção preferencial de fontes de energia renováveis e de tecnologias limpas.
·               Que a presente declaração seja nosso compromisso coletivo para um clima ambiental e relacional mais saudável entre todos os seres da Terra.
Rio de Janeiro, 25 de agosto de 2015. 
André Trigueiro                               
Pastor Ariovaldo Ramos                 
Mãe Beata de Yemonjá                   
Dolores (Inkaruna) Ayay Chilón
Mãe Flávia Pinto                              
Reverendo Fletcher Harper            
Padre Josafá Carlos de Siqueira SJ
Baba Kola Abimbola                        
Léo Yawabane                                  
Lama Padma Samten                      
Rabino Nilton Bonder                     
Pastor Timóteo Carriker                       

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O futuro das empresas depende da valorização da biodiversidade



* por Ulisses Sabará

Apostar no uso da biodiversidade como forma de valorização dos negócios é uma realidade cada vez mais próxima das empresas, principalmente no Brasil, um país repleto de riquezas naturais e com 60% de seu território cobertos por vegetação. No entanto, para investir nessa tendência, é preciso saber aproveitar os recursos da natureza de maneira sustentável. Em outras palavras, para manter a competitividade, é preciso estar alinhado à necessidade do consumidor, a cada dia mais atento a transparência, ética e respeito ao meio ambiente.

Aliás, essa é uma questão que foi abordada recentemente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), ao apresentar o estudo “Retrato do uso sustentável de recursos da biodiversidade pela indústria Brasileira”. A análise ouviu 120 executivos de pequenas, médias e grandes indústrias.

Entre os pontos apresentados, chama a atenção o fato de que 86,7% dos gestores brasileiros enxergam que a importância atribuída ao uso da sustentabilidade aumentou nos últimos cinco anos. Para eles, isso ocorre devido à maior conscientização das pessoas, ao aumento de campanhas ligadas ao tema e também ao fato de os empresários estarem mais atentos ao uso sustentável da biodiversidade.

A análise ainda apontou que, nos últimos dois anos, 52,5% das empresas investiram em produtos que utilizam recursos da biodiversidade. Além disso, no mesmo período, 48% das companhias de grande porte investiram em ações ou projetos voluntários de conservação ambiental.

Os resultados mostram que o país está muito mais comprometido com o respeito ao meio ambiente do que há alguns anos. Muitos já enxergam que a biodiversidade tem o poder de tornar os negócios mais competitivos. E a meta é que, com o passar dos anos, novas companhias se inspirem e invistam em modelos de negócios mais transparentes, com cadeias de produção comprometidas com o bem-estar das gerações atuais e futuras.

Afinal, existe um interesse crescente da população mundial por produtos eficazes e que tenham uma história verdadeira de sustentabilidade por trás deles. E é nisso que a Beraca aposta ao trabalhar com produtos de origem não madeireira, como frutos e sementes da biodiversidade brasileira. O modelo de negócio adotado pela empresa garante não somente a preservação dos biomas naturais, mas também a criação de uma cadeia de valor, capaz de estimular a preservação ambiental e promover uma melhoria na qualidade de vida das famílias extrativistas.

Esse é apenas um exemplo. O importante é mostrar que, para uma mudança sustentável, é preciso investir na criação de sistemas, processos e políticas. Certamente, com ações capazes de recuperar e tratar o solo e preservar as florestas e as plantações, será possível resgatar o valor das riquezas naturais e ampliar ainda mais o poder da nossa biodiversidade. Essa é uma iniciativa capaz de transformar o meio ambiente e a nossa economia.

* Ulisses Sabará é Presidente da Beraca, líder global no fornecimento de ingredientes naturais provenientes da biodiversidade brasileira para as indústrias de cosméticos, produtos farmacêuticos e cuidados pessoais.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Santo André já tem a sua Política Municipal de Educação Ambiental



Cidade é a primeira do ABC a ter uma legislação específica para a área. Íntegra da lei foi publicada hoje

Após dois anos de discussão, que envolveram Prefeitura, Semasa e população, Santo André tem agora, aprovada pela Câmara de vereadores e sancionada pelo prefeito Carlos Grana, sua Política Municipal de Educação Ambiental (PMEA). Com ela, a cidade passa a ser a primeira do ABC a adotar uma legislação específica para área, em conformidade com leis federais e estaduais que regulamentam a questão. 

A Educação Ambiental busca, através de um processo permanente e participativo, despertar nas pessoas valores, atitudes, conhecimentos e competências que levem a uma transformação da relação do ser humano com o meio em que vive. A ideia é que, com a Educação Ambiental, se estimule o convívio sustentável do indivíduo com o meio ambiente. Uma política específica para a cidade vem fortalecer este princípio, considerando as particularidades do local. 

Amplo processo participativo -  Importante característica da Política Municipal de Educação Ambiental de Santo André é a sua elaboração, que se deu através de um amplo processo participativo, que contou com vários setores do Semasa e também da Prefeitura. 
Internamente, o Departamento de Gestão Ambiental coordenou o processo, mas as discussões envolveram os departamentos de Defesa Civil e de Resíduos Sólidos, além das coordenadorias de Assuntos Jurídicos e Comunicação Social. Pela Prefeitura, houve o envolvimento ativo das secretarias de Educação, de Saúde e de Gestão de Recursos Naturais de Paranapiacaba e Parque Andreense.
Também importante para a construção da lei foi o envolvimento da população, que atuou ativamente durante debates públicos realizados na cidade e também enviando sugestões pela internet. Foram organizadas reuniões informativas com moradores da área de manancial, com organizações sociais, com profissionais da Saúde e da Educação e também com os conselhos municipais da cidade. Em março, também foi realizada uma conferência municipal aberta ao público, quando o texto produzido até então foi debatido com os participantes.
Agora, um Órgão Gestor e um Comitê Municipal de Educação Ambiental serão formados para acompanhar o cumprimento da lei.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Cadeias de negócios sustentáveis em prol do meio ambiente



* por Thiago Terada

Durante a 21ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP21, realizada em 2015, o Brasil assumiu o compromisso de reduzir em 37% a emissão de gases do efeito estufa até 2025. Para 2030, o objetivo é ainda mais desafiador: minimizar a emissão de gases em 43%, zerar o desmatamento na Amazônia Legal e restaurar 12 milhões de hectares de florestas.

Para que o país atinja esses números, além do reflorestamento, fiscalização e criação de unidades de conservação, é preciso apostar também em alternativas de uso sustentável da floresta pelas mais de 4 milhões de pessoas que lá vivem. Uma oportunidade para atingir a meta é por meio do extrativismo sustentável, iniciativa que consiste na manutenção das florestas em pé, para que seus frutos e sementes sirvam como uma fonte de renda aos moradores das comunidades ribeirinhas e pequenos núcleos de agricultura familiar através do SAF – Sistema Agroflorestal.

O objetivo é fazer com que as famílias que vivem em áreas como a região amazônica não dependam apenas de atividades como a monocultura de mandioca e a pesca, por exemplo. Dessa forma, é possível respeitar as sazonalidades e ainda beneficiar as comunidades extrativistas.

Atentas à tendência global de vegetalizar as formulações que produzem, as indústrias de cosméticos e higiene pessoal podem ser vistas como importantes agentes no processo de extrativismo sustentável. Isso porque grandes companhias globais passaram a buscar na natureza alternativas eficientes, como frutos e sementes com propriedades capazes de auxiliar no tratamento dos cabelos e do corpo.

No entanto, para que essa parceria entre indústria e comunidade seja colocada em prática, é necessário investir na criação de uma cadeia de fornecimento sustentável, na qual seja possível comprar os insumos naturais, criar competências empreendedoras nestas comunidades e ainda repartir benefícios com as famílias fornecedoras de matérias-primas. Esse modelo de negócio propõe que sejam promovidas alianças entre as empresas do setor, ONGs, academias e órgãos governamentais, para contribuir com o desenvolvimento dessas famílias por meio da promoção do conhecimento, da transferência de tecnologias, do aprimoramento técnico e da capacitação de pessoas.

Um exemplo prático de como o extrativismo sustentável ajuda a promover a melhoria social e a preservação do meio ambiente está na cadeia do pracaxi e murumuru, no estado do Pará. Em um levantamento feito em parceria com uma academia, foi constatado que, em determinadas regiões, para cada 1 real investido no extrativismo sustentável, são retirados 3,6 reais da mão da obra em madeireiras ilegais. Somado a isso, temos o aumento da eficiência de políticas públicas como o Seguro-defeso e a Bolsa Verde que criam incentivos para colaborar nesse processo.
Esse é apenas um dos trabalhos que encontramos no país capazes de ajudar a conter o desmatamento e a degradação ambiental. O ponto principal é que as florestas devem ser vistas como uma fonte de recursos finitos e essencial para a sobrevivência da humanidade. Sua preservação é o passaporte para um futuro com mais esperança para as futuras gerações.

Thiago Terada é Gerente de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos da Beraca, líder global no fornecimento de ingredientes naturais provenientes da biodiversidade brasileira para as indústrias de cosméticos, produtos farmacêuticos e cuidados pessoais

quarta-feira, 27 de abril de 2016

27 DE ABRIL: DIA MUNDIAL DA ANTA


Data chama atenção para a necessidade da conservação em todo o mundo. A INCAB – Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira, do IPÊ, conta com o maior e mais completo banco de dados sobre a anta brasileira do mundo


O mundo possui quatro espécies de anta: A anta-da-montanha (Andes), a anta-centro-americana (América Central), a anta-malaia (Sudeste Asiático) e a anta-sul-americana ou brasileira (11 países sul-americanos). Todas elas são listadas como ameaçadas de extinção, segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). 

As ameaças à sobrevivência dessas espécies inspiraram a criação de um DIA MUNDIAL - 27 de Abril - que celebra a importância das antas para o meio ambiente, e chama a atenção para a urgência de sua conservação.

Na América do Sul, a anta é o maior mamífero terrestre que existe. É considerada também a jardineira das florestas por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuindo desta forma para a formação e manutenção da biodiversidade. No Brasil, a espécie ocorre nos biomas Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal e Amazônia. A Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, trabalha com pesquisa científica, planejamento de ações conservacionistas, educação ambiental, treinamento e capacitação, turismo científico e comunicação, no intuito de conservar as antas em todo o país. A INCAB possui o maior banco de dados sobre a espécie no mundo, resultado de um trabalho ininterrupto que completa 20 anos de existência em 2016.

"O nosso grande diferencial é a pesquisa científica de longa duração, que é de extrema importância no processo de gerar informações para alimentar e subsidiar o desenvolvimento de ações de conservação realistas e efetivas. Grande parte das informações que utilizávamos anteriormente para avaliar o risco de extinção das antas na natureza provinha de estudos em cativeiro. Atualmente, depois de trabalhos de pesquisa rigorosos na Mata Atlântica, Pantanal e Cerrado, contamos com um banco de dados consolidado com informações de antas em vida selvagem. Podemos, por exemplo, calcular alguns parâmetros reprodutivos da espécie tais como índices de mortalidade de filhotes, intervalos entre nascimentos, com base em nossos resultados de pesquisa", diz Patrícia Medici, pesquisadora do IPÊ e coordenadora da INCAB.

Apesar de a espécie ser tão importante para o equilíbrio de ecossistemas, no Brasil o nome "anta" possui uma conotação pejorativa - comparando-o a um ser desprovido de inteligência. O que é um enorme erro, segundo a pesquisadora. "A anta tem uma quantidade imensa de neurônios. Há pesquisas que mostram isso. Ao contrário do que dizem, é um animal extremamente inteligente. Usar o nome 'anta' como xingamento é completamente injusto. Por isso, em nossas campanhas de sensibilização usamos o slogan 'anta é elogio'”, defende Patrícia.